poemas

VIDA MUTANTE

(Tema:: Germano Gladstone O. Japiassú)

Ando danado apressado,
não paro nem prá pensar,
cantarolar na banda do bairro
sempre foi o meu sonhar.

Vou deixar essa vida stressada,
telefone, compromisso, canetada,
não vou mais adotar o relatório
da respeitável sentença apelada.

Vejo que o tempo só passa,
a árvore, o pássaro, a massa,
tocar na banda do bairro
é que é raça, é raça, é raça.

Pra lá máquina datilográfica,
cai fora pistola automática,
essa toga super telepática
psicodélica, psicossomática.

Vou fazer um rock de graça,
pegar nessa guitarra dramática,
numa nova onda que é massa
início de outra ronda temática.

Porque o tempo só traça,
o dia e a noite que passa,
tocar na banda do bairro
é que é raça, é raça, é raça.

Recife/PE/Mar./2002

UM POEMA PARA A NATUREZA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Era manhã,
o sol raiava límpido
e o sino batia sonoramente.

Tudo era alegria,
as cores eram bonitas
e transformavam-se em poesia.

O azul no horizonte era belo
e o canto dos pássaros
era meigo, era tão singelo.

O céu, o mar e as brancas nuvens
transbordavam uma inspiração poética,
o canto da natureza, a beleza das cores.

Tudo enfeitava a alma
e no meio de toda essa alegria,
nasceu o poeta, nasceu a poesia.

Lagoa Seca/PB/Set/1965

DOS SONHOS E ALEGRIAS DAS CRIANÇAS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Nos meus seis ou sete anos a vida era só alegria.
Aprendi a não mentir, aprendi a não roubar,
aprendi a rezar de manhã cedo,
aprendi a recitar uma poesia que dizia que a vida é bela.
Aprendi que não devia ter medo,
aprendi a olhar para os olhos dos amigos,
aprendi a cantar uma canção.
No Grupo Escolar a professora ensinava
que seríamos os homens do amanhã.

Nos meus oito ou nove anos a vida era só alegria.
Eu mesmo fabricava meus brinquedos.
Eram automóveis, caminhões e patinetes de madeira.
Lembro-me agora do último carrinho que construí:
minha tia deu mais tarde de presente a um menino pobre.
O meu cavalo-de-pau de marmeleiro verde foi-se com o tempo,
mas era um verdadeiro cavalo nas minhas vaquejadas de criança.

Quando chovia no sertão eu fazia grandes açudes,
aproveitando a água que descia pela rua sem calçamento.
A América era bem mais atrazada do que hoje.
Uma vez encontrei no lixo um jipe de plástico amarelinho
que tinha uns quatro centímetros e estava sem pneus.
Não lembro-me se era dia da criança
quando encontrei o tal jipe amarelo.
No lugar dos pneus coloquei quatro botões branco,
desses de abotoar roupas.
Com meu jipe brinquei quase um ano e meio até abusar.

CINZA VERMELHO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Eles só sabem dizer
que a cidade é só cinza
e o céu que se vê
cor de cinza,
eles só sabem dizer
que é vermelho.

Quando acaba o momento
cor de cinza e vermelho,
então eles sabem dizer
que o céu que se vê,
é só cinza, é só cinza
e a cidade é vermelha.

Quando eles vão sumindo
na curva do caminho,
olham então pra você
e só sabem dizer,
que o céu que se vê
cor de cinza, é vermelho.

São todos uns pirados,
piratas ou pilantras
que só vivem nas ruas,
que só sabem dizer:
é só cinza e vermelho.

Mas deviam saber
que alguma estrela piscou,
que uma lua se esconde no beiral,
e o céu que se vê é azul,
um lindo azul celestial.

Recife/PE/Ago./1982

MEUS SCRAPS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Não apague meus scraps,
mesmo que eles sejam tristes ou traschs,
chiques, ou pra lá de marraquetch.
Eles são apenas meus únicos scraps
voando suavemente e leve pelo mundo.

Se quiser vê-los é só clicar,
é só scraptar-me enquanto houver o sol.
Não deixe pra outro dia,
que noutro dia será tarde.

Seremos velhos rabugentos,
lentos, nerds, scraptados e sós,
às vezes vagando tristes pela rua.
Scrapte-me agora enquanto houver a lua.
Não deixe pra outra noite,
que noutra noite será tarde.

Recife/PE/Ago./2007

MEU ÚLTIMO DIA DE VIDA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Qualquer dia desses
estarei diante do meu último dia de vida,
e no prenúncio da hora fatal,
ficarei a espera do suspiro final.

Quando minha máquina humana
não mais respirar,
meus ouvidos deixarão de ouvir
minhas canções prediletas.

Meus netos e netas, se os tiverem,
certamente rezarão a Ave Maria,
desejando à este terráqueo
dias melhores que todos esses dias.

Nesse momento triste e alegre
da minha última agonia,
meus anjos serenos descerão,
de alguma estrela que me alumia.

E a todo instante unidos vão cantar
belas canções que me acalentarão,
durante minha nova viagem
ao encontro de outros seres cósmicos.

Nessa curta trajetória,
não sei se a vida terá sido insana,
mas uma coisa é certa
do que aprendi durante a lida:

-Acreditar nesse morrer sem respirar,
quando o corpo a alma lhe abandona,
é tudo que se sabe dessa mãe matéria,
é o óbvio da miséria humana.

Recife/PE/Out./2002

O ANIMAL CAMINHADOR CONTRA O VÔO DO PÁSSARO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Você pode ganhar o mundo com suas grandes asas,
mas não sabe nada das minhas viagens nos caminhos da vida.
Você voa muito alto, mas não sente o frescor das árvores,
nem o cheiro forte dos musgos das florestas tropicais.

Você não sabe como é bom caminhar, parar, sorrir, cantar
à sombra das folhagens, depois chegar numa casinha branca,
coqueiros, cajueiros, prontos para a próxima safra dos quintais.
Você só faz voar, voar, voar, com suas grandes asas siderais.

- As minhas asas voam leve pelo ar, sou um pássaro azul esvoaçante,
você não passa de um animal caminhador, você é minha presa,
minha flor lilás, meu néctar para o jantar na minha leveza pelo ar.

- Oh! Não! Prefiro ser esse animal caminhador. Não sou presa, eu vivo no caminho,
sei escapar pelo atalho. Você não! Você é alvo muito leve voando pelo céu,
pra qualquer caçador bom de mira como eu. – Velho animal azul caminhador.

Recife/PE/Abr./1997

POBRE BEM-TE-VI

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Não sonhes em chegar no mais alto grau,
pensando apenas no poder
ou porque terás vários súditos.

Penses que servirás a moralidade,
a grande moralidade das idéias,
das sonhadas idéias de justiça.

Se ao subir o último degrau imaginares
que os outros estarão abaixo de ti!
Estarás muito enganado nas tuas idéias,
não passarás de um pobre bem-te-vi.

Quando o pôr-do-sol chegar olha pra ele,
não deixes que anoiteça sem que ao menos o veja.
Larga tudo! Teus velhos papéis empoeirados,
futuramente as traças comerão.

O que vale mesmo é a luta das idéias,
das sonhadas idéias de justiça.
Não é o posto que ocupas nessa casa,
nem esses velhos rabiscos de tua mão.

Recife/PE/Set./1996

MISTER TEMPO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Mister Tempo!
Você aqui é o maior, só você é quem manda,
anda nessa periferia com a calça frouxa,
acenando pra qualquer cidadão olhar
essa sua camisa azul-anil e cor-de-rosa.

Mister Tempo!
O pior é que você pensa que é o quente,
é quem está na moda e sabe tudo,
traz à tiracolo um lindo violão,
cansado da mesma canção em sétima menor.

Mister Tempo!
Mude o seu jeito de ser, mude o seu olhar,
mude a nova forma de você pensar,
de você cantar, de você sorrir, de você calar.
Mude o tom de sua canção, de sua poesia,
mude pelo simples fato de mudar,
enquanto houver tempo e sol.

Mude Mister Tempo!
Mude essa canção em sétima menor,
faça alguma coisa nova, fale do amor,
mesmo que no seu maior limite exista a dor.
Pois uma orquestra orquestrará melhor,
quando se tratar de uma toada suáve,
e só cantada por uma criança do Xingó.

Recife/PE/Jan./1996

UM PÁSSARO BRANCO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Um pássaro branco pousou na janela
do quarto de minha amada.
Uma cartomante falou pra ela,
que era paz e riqueza.

Ah! Que beleza esse pássaro alado!
Veja a idade de um pássaro branco.
Seja você esse pássaro amado,
voando no tempo, voando…

Recife/PE/Jun./1995

UM PÁSSARO BRANCO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Um pássaro branco pousou na janela
do quarto de minha amada.
Uma cartomante falou pra ela,
que era paz e riqueza.

Ah! Que beleza esse pássaro alado!
Veja a idade de um pássaro branco.
Seja você esse pássaro amado,
voando no tempo, voando…

Recife/PE/Jun./1995

LOCOMOTIVA DA CRIANÇADA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Espero poder viajar com você
com filhos e netos numa longa viagem,
olhar as paisagens, paragens, várzeas, montanhas,
estradas, casas, ranchos, matas, campos, capins, horizontes.

Espero poder viajar com você,
tomar coca-cola numa lanchonete que houver na estação.
Aquela com alguns toques da Califórnia que não conheço.

Ouvir o apito da locomotiva, ir devagar prá olhar melhor a cidade,
a folha da árvore caindo com o vento.
Espero poder viajar com você numa longa viagem.

Passar por vilarejos, ver crianças brincando,
sol, montanhas, campos, rios, vales e várzeas,
sabendo que amanhã estaremos melhor do que ontem.

Poder viajar nessa locomotiva sobre trilhos imensos,
olhando prá o firmamento, e só quem vai dentro é a gente,
e a criançada em largos acenos de amor.

Recife/PE/Mai./1995

TRILHA DOS SONHOS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Não há lugar que não seja vasto,
nem há nada sob o chão que não se ame,
o céu e a Terra a nossa grande saída,
todas as nações bandeiras coloridas.

Não há nada mesmo que não se chame pelo nome,
adiante, o tempo vê passar a nossa lida.
Querida Terra! Não há mesmo coisa alguma,
que não tome o rumo certo em nossa vida.

Acredite agora que é preciso caminhar de novo,
que é bem melhor olhar o mundo de outra forma,
viajar depois de tantos anos, viver sonhando,
pensar sempre que existem muitos planos.

Acredite quase em tudo a sua frente,
vá fundo mesmo!
Repense todos os detalhes,
uma canção, o céu, o sol, a sua mente,
pense sempre que existem muitos planos.

Pois qualquer dia desses pintará uma estrela,
você de tanto vê-la brilhará
e sentirá no coração o amor de tantos anos.

Recife/PE/Jan./1994

VELHO ESCRITOR DE VERSOS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Vamos viver essa vida,
Mion, Batatinha e Tererê,
Ringo, Bela, Acheu, eu e você,
num Recanto Ecológico.

No Recanto tinha um Chefe
que se foi para nunca mais voltar,
cortaram suas asas há um ano atrás
em pleno tempo de liberdade.

O velho escritor de versos
ficou então sentado, cabisbaixo,
não existe nada agora na sua cabeça,
a não ser aceitar o honroso título
concedido pelos cidadãos terráqueos,
que é o de ser um babaca sonhador.

Nos versos e modas que faz,
não passa de um pobre poeta,
só sabe decifrar potoca e safadeza,
da missa não sabe o terço,
é vesgo e eu acho é pouco
o que falam desse coitado.

O velho escritor de versos
é louco, lerdo, é babaca mesmo,
não se sabe nem se o Chefe
que voou para nunca mais voltar,
se foi por conta de sua potoca poética,
quando cantarolava para os cãezinhos:

Vamos viver essa vida,
Mion, Batatinha e Tererê,
Ringo, Bela, Acheu, eu e você,
num Recanto Ecológico.

Recife/PE/Nov.1992

O HOMEM DA LEI

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Lá seguia o homem da lei
com seu “Vade Mecum”na mão,
era dia quente em pleno outubro,
o céu muito claro no sertão.

Lá seguia o homem da lei,
cantarolando uma canção blues,
no seu coração era só saudades,
pela estrada da montanha azul.

Era assim que o tempo convidava,
pra o homem da lei ser juiz de uma cidade
do São Francisco, Moxotó,
do Agreste ou Pajeú.

Lá seguia o homem da lei
por esse Brasil sertão adentro,
com seu pesado “Vade Mecum”,
na primavera de um novo tempo.

Eram mais de 100 mil leis federais
e um surrado paletó prá espantar,
fazia calor de quarenta e três graus
quando o homem da lei foi sentenciar.

Triunfo/PE/Fev./1986

OLHO D’ÁGUA DO JUÁ

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Aqui bem perto onde estamos,
sobre a terra que pisamos
existe um passarinho,
tem uma serra,
com cheiro de flor
da eterna Terra.

Aqui bem perto o olho d’água
sangrando nas fotografias,
onde tem um bezerrinho,
tem uma serra,
numa era de muito amor
da eterna Terra.

Olho D’Água sangrou no Juá,
numa era de um passarinho
que mora na serra,
tem cheiro de flor,
tem gosto de amor
da eterna Terra.

Recife/PE/Jul./1984

TRISTE AMÉRICA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Vem por essa estrada a ventania,
passa na cidade abandonada,
todos que gritavam pelas ruas
hão de ouvir a história ou quase nada.

Tudo ficou longe dos teus olhos,
toda carne pouca para o jantar,
esses teus ouvidos já não mais escutam
e as mãos vazias não se pode dar.

Vem por essa estrada a ventania,
que por trás de casa te cercava,
hoje a liberdade é tão estranha,
oh! Velha cidade tão cruel!
Desde tanto tempo te conheço
que esse povo triste olha pro céu.

Recife/PE/Jul/1979

ESTAMOS CAMINHANDO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Estamos tão cansados
de esperar o dia,
que em toda a cidade
se comemoraria.

Estamos caminhando
antes que caia a noite,
antes que a tempestade
avance em nossa côrte.

De céu a céu vamos cantar
antes que seja tarde,
todos os nossos hinos
e um só estandarte.

De sol a sol vamos cantar
a vida, o sonho, a arte,
e um só pensamento:
alegria e liberdade.

Recife/PE/Abr./1978

JANETE DO BANGUE-BANGUE

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Sou o fantasma da noite,
com minha sombra me deito.
Sou uma senhora casada,
idade avançada e muito respeito.

Sou essa flor lá dos Pampas,
amor que mora no seu coração.
Sou essa outra que vive,
nas docas e bôcas com a vela na mão.

Sou os olhos do clarão do dia
quando se mexem.
Quando é tarde da noite,
eu sempre sou de ninguém.

Eu tenho os dentes trincados,
os olhos cheios de sangue.
Na minha fôlha-corrida,
Janete do Bangue-Bangue.

São Luiz/MA/Jan./1977

CORDEIRO MANSO

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Ele não tem nada
pra fazê-la se prender
no seu amor,
e nenhum sorriso
dela traz
para melhor viver.

Ele é como um cordeirinho
manso, sujo e solto
lá no campo,
olhando pra janela dela,
vendo o dia
quando quer morrer.

E fica escutando
a voz do vento frio
dentro do seu pranto,
e cedo vai dormir,
sonhando
com quem nunca
há de lhe querer.

Recife/PE/Mar./1974

ALGUM TEMPO ATRÁS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Vocês devem nos chamar como somos e fomos,
enquanto bebemos esta bebida
e enquanto ouvimos “I Fell Fine”.

Vocês podem até pensar que ainda não lutamos,
que sempre bebemos mais um pouco
quando ouvimos “I Fell Fine”.

Oh! Menino! Meninos e Meninas!
Fomos a mesma cabeça, a mesma memória
e a mesma camisa suja de batom.

Oh! Menino! Meninos e Meninas!
Somos ainda garotos e nessa mesma história
vamos beber mais um pouco ouvindo “I Fell Fine”.

Algum tempo atrás se tocava bandolim,
e era bom aprender o bandolim
no banco trazeiro do carro.

Beber mais uma bebida de batida de limão,
depois acender mais um cigarro,
ouvindo apenas o coiote no final de “I Fell Fine”.

Recife/PE/Mai./1973

UMA CIVILIZAÇÃO LONGE DESSE CÉU

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Hoje a lua veio tarde,
se derramando, parecendo mel.
Desmaiando no descampado,
desmanchando o céu.

Hoje eu vi a minha sombra
caindo do outro lado do cercado.
Parece que se foi um século
e fiquei assim amargo como fel.

A gente cresce e corre,
se estende, se encolhe
e não encontra Deus.

Será que ainda não sei
que a lua está vindo tarde?
Que há uma civilização
longe desse céu?

Recife/PE/Mai/1972

LAMARCA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

A lama,
a marca,
o lado
leste,
a nave
caída,
perdida,
a ave
celeste,
a chave,
a trave
cravada
na porta,
a torta
na mesa,
banquete
e limpeza.

Recife/PE/Nov./1971

BAILE DAS MÃOS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

As minhas mãos
escondidas,
enfraquecidas…

As minhas mãos
algemadas,
estendidas,
esquecidas
e geladas,
procuram
na escuridão
as tuas mãos.

As nossas mãos
perdidas
e distantes…

As nossas mãos
tão pequenas…

Recife/PE/Mar/1971

O BEIRA MAR

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

De dia a dia o “Beira Mar”
beirando o mar,
espera triste a cantar,
alguma sombra de uma barca
vagando só no mar.

Quando anoitece
o sol se tange devagar,
prá bem distante
noutro leste vai brilhar.

E o “Beira Mar”
beirando o mar,
espera triste a cantar.

Vive sonhando
não sei com quem,
vive chorando
nem sei por quem,
vive cantando
não sei prá quem.

O “Beira Mar”
beirando o mar,
espera a barca chegar…

Campina Grande/PB/Set./1969.

MINHA POBRE MÃE LUÍZA

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

Eu sei que te encontras em algum lugar,
talvez estejas longe de mim, não sei bem…
Mas… um dia moramos na mesma casa,
ainda te lembras?
Era um lar cheio de amor, havia carinho,
a gente era feliz ainda me lembro…

Que belas as manhãs!
O sol de mansinho beijava tudo
e um perfume “sui-generis” cobria o bom lugar.
Os primeiros toques do sino
anunciavam um novo dia,
num turbilhão de pássaros,
abria-se naquele instante
a inconfundível cortina de um teatro.

A natureza dramatizava tudo,
jamais ví tamanha beleza.
Mãe Luíza abria os olhos,
parecia ver o paraíso.
Talvez ela ouvisse bem longe mesmo,
o suáve badalar de sinos misteriosos…
Eram anjos que tocavam lá no céu,
e aqui na Terra ela ouvia a sinfonia
de crianças que tocavam balalaica
e canários que faziam fantasias.

Já era hora de despertar,
podia ainda mitigar um pouco de sono,
mas não…
Havia de ir ao templo.
Sem receio de nada deixava o lar,
e sobre o assoalho da capela
ela ia rezar, ela ia cantar,
ela pedia por todos,
ela pedia por mim…

Assim eram os seus dias,
alegrias, emoções e sofrimentos
marcaram os anos de sua vida.
Nos seus olhos morava uma esperança,
era pobre, humilde, não tinha nada.
Apenas, um bom coração
onde havia ternura.

Um dia tudo acabou!
Foi numa madrugada,
reinava quietude naquele pedaço de mundo.
Tudo dormia…
A escuridão cobria o solo fértil do lugar,
a brisa ingênua cortava o espaço noturno,
nenhum paroxismo…
Apenas, um balbuciar terno e meigo
de uma santa,
rompia o silêncio da natureza.

Havia chegado o momento…
Foi um momento patético,
em que deixara o último adeus
a alma saudosa.
Partiu Mãe Luíza,
numa segunda feira do mês de junho.

Campina Grande-PB/Nov./1967.

DEVANEIOS

(Tema: Germano Gladstone O. Japiassú)

É bem distante sim…
Em algum lugar onde o sol ainda não se pôs,
onde a vida ainda não morreu.

Eu quero encontrar, mas…
É bem distante, é muito longe,
um país desconhecido, encantado…

Parece que está perdido,
por aí embalado entre as nuvens
que rolam no espaço infinito.

Será que tem fadas, ou jardins?
Ou palácios de prata?
Será que as estradas são ladeadas de neve?

Ah! … Se eu pudesse ver de longe esse lugar!

Campina Grande/PB/Set/1967